sábado, 8 de maio de 2010

Relatividade

Van Gogh

É tudo relativo. A relatividade das coisas é o aspecto mais interessante da vida. Porque nela reside a expressividade mais fundamentalmente intrínseca a ela própria. Eu gosto da relatividade. Ela ajuda-me e ensina-me a melhor perceber a verdade. Que é, em si mesma, algo de razoavelmente relativo.
Eu gosto da relatividade da minha vida. Permite-me destrinçá-la a ela mesma. E tudo, no fundo, que aparece e se relaciona com esse período mínimo que temos para dizer que temos uma vida é importante. Afinal, só temos uma vida para viver. E tudo é relativo. Felizmente.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Página em branco



Tenho uma página inteira para escrever. Que é como quem diz, ando a acumular histórias. De mim e de outros. Ando a descobrir e perceber um lado oculto, mas transponível. Ando também a aumentar-me.
Estou em Luanda. E oiço, todos os dias, as particulares histórias de todos e cada um. Absorvo, gota a gota, as diversidades. Integro em mim as novidades, as surpresas e as infindáveis verdades. Interiorizo Luanda.
Hoje choveu, choveu muito. E ao fim de quinze dias vi a a baía de Luanda em toda a sua transparência. Foi mágico e secretamente filmado na minha retina. Só nela. Sem turismo, ou fortuitas captações, porque tenho apenas o meu computador. Aquele que me permite estar em todo o mundo ao mesmo tempo. E simplesmente aqui.
Tenho uma página em branco, disponível e generosa, para absorver humildemente o que um dia hei-de saber melhor.
É bom ter uma página em branco. É uma possibilidade completa e complexa. Neste caso, sem a angústia tantas vezes sentida.
Estou em Luanda e isso é bom.
É bom ter páginas em branco em qualquer parte do mundo.
Para mim está a ser bom ter esta, aqui.
É bom tê-la em Luanda.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Dormir


Há sonhos por dentro do sono. Labirínticos e esquisitos. Com espaços outrora habitados, mas confusos. Aparecem coisas, devaneios, medos, confusões. Há inúmeras coisas dentro dos sonhos. E há sonhos assombrosos e outros mais difusos. É tão estranho o dormir.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Salgueiro Maia




Não gosto, entre outros, de um traço de personalidade nacional: a hipocrisia. Como uma herança meio bafienta e salazarenta, a hipocrisia enerva-me. Associo-a ao enganador, àquele que se se supõe mais espertalhaço do que o outro, supondo enganá-lo com habilidade. Com aquela falsidade tão fácil num país para o qual a memória é algo que se prefere não ter. Dói menos, assim.
E o pior não é, apenas, esta colectiva maneira de se aceitar o simulacro, mas o quanto se entranha e assim se entende, um pouco aqui, um pouco ali, ser esta uma excelente solução para se seguir vivendo.
Finge-se não perceber, finge-se não ver, finge-se o esquecimento. Como um estúpido modo de se dissimular a dor. E os hipócritas prosseguem o seu fito.
Não gosto de hipocrisia.
Não gosto de fingimentos dissimulados, da espertalhice canalha, da porcalhice.

Vem isto a propósito de qualquer coisa, é claro!
Uma notícia saída em vários sítios. Reproduzo aqui aquela cuja escrita, o modo de contar, mais me tocou.

Cavaco homenageia o homem a quem há 20 anos recusou pensão

Quando, esta manhã, Natércia Maia olhar nos olhos do Presidente da República, há-de lembrar-se do primeiro-ministro que, há 20 anos, recusou conceder a Salgueiro Maia uma pensão por "serviços excepcionais ou relevantes prestados ao país". Cavaco Silva que hoje, às dez da manhã, vai depositar uma coroa de flores junto à estátua do capitão de Abril, há-de lembrar-se da polémica provocada por ter concedido a dois inspectores da PIDE, António Bernardo e Óscar Cardoso, a pensão que negou a Salgueiro Maia.
Em 1988, o militar solicitou ao governo uma pensão "por serviços excepcionais prestados ao país". O pedido recebeu apreciação positiva - e até obrigatória - do conselho consultivo da PGR que, em Junho de 1989, por unanimidade, declarou que "muito do êxito da revolução se ficou a dever ao comportamento valoroso daquele que foi apodado de Grande Operacional do 25 de Abril".
O parecer enviado a Cavaco Silva e Miguel Cadilhe, então primeiro-ministro e ministro das Finanças, respectivamente, ficou amarrado a um silêncio que durou três anos. Em 1992, a recusa é revelada porque se fica a saber que Cavaco Silva "tinha concedido pensões por serviços relevantes prestados ao país" a dois inspectores da PIDE. Um deles estava entre os que fizeram fogo sobre a multidão que estava na rua António Maria Cardoso - causando os únicos mortos da revolução.
A revelação provocou uma onda de indignação no país: Francisco Sousa Tavares escreve, no "Público", críticas violentas que acabam em tribunal - as palavras do escritor irritaram os juízes do Supremo Tribunal Militar - e dois meses mais tarde surge a mão de Mário Soares.
O Presidente escolhe então o dia das Forças Armadas para condecorar Salgueiro Maia com a Ordem Militar de Torre e Espada. A honra concedida a título póstumo - Salgueiro Maia morreu a 4 de Junho de 1992 - era a única condecoração que podia dar direito a uma pensão.
Cavaco Silva vai estar hoje frente-a-frente com o passado, perante um militar que juntou quatro presidentes da República no dia do funeral.

Artur Cassiano, in “i”

terça-feira, 9 de junho de 2009

Vitinha

Malangatana

Conheci o Vitinha em 1984, quando me serviu um caldo-verde fumegante num bar da Madragoa, onde se ouvia jazz e que permanecia aberto até de manhã. Deviam ser umas quatro e muito da manhã, e eu fazia horas, com aquele que viria a ser pai do meu filho Pedro, o Mário, e uma amiga com quem dividia a primeira casa que aluguei, no Cacém. O Vitinha tinha andado por terras de França e dividia, com o Pedro Malaquias, a autoria das letras dos Rádio Macau. Para sobreviver, trabalhava naquele bar de onde, tanto quanto me lembro, se despediu quando a patroa lhe exigiu que servisse caldos-verde menos quentes e isso o indignou. Como ele vivia em Rio de Mouro, fomos juntos no primeiro comboio. Animado com a conversa, principalmente com a minha amiga, apeou-se no Cacém e tomámos um pequeno-almoço de croissants acafezados numa pastelaria perto da estação. Ficámos conhecidos!
Como ele era específico, lembro-me de, quando em Dezembro nos convidou para o seu aniversário, lhe termos levado um presente demoradamente escolhido por mim e pela Cristina: uma série de sinais de trânsito, daqueles com que as crianças brincam, que pretendiam ajudá-lo a encontrar um caminho. Não explicámos como deveria orientá-los. Muitos anos depois, na Tertúlia, no Bairro Alto, confessou-me que fizera todas as combinações possíveis sem que alguma vez entendesse o percurso que estivera nas nossas intenções. A verdade é que nem nós o tivéramos absolutamente claro.
As nossas vidas foram andando e tanto ele quanto eu regressámos à nossa Lisboa, do elevador da Glória. Íamo-nos encontrando.
Trabalhámos na mesma rádio local, onde ele tinha, a meias com o Malaquias, um programa delirante chamado Despertar dos Alpinistas, e eu um relativamente enfadonho sobre Lisboa.
O Vitinha decidiu regressar aos estudos e foi para a que fora a minha Faculdade (ainda o era um pedacinho, por ter umas velhas cadeiras penduradas) fazer Literaturas. Já bem mais crescido do que os seus colegas, tornou-se dirigente da Associação de Estudantes e fez parte do movimento “Não pagamos!”. As propinas, claro!
Íamo-nos vendo e ele acabou por se tornar amigo da minha irmã Olga, que vivia em Paris. Razão pela qual acabámos por passar um Natal juntos, em casa dela. O Natal mais divertido de que o meu filho Pedro se lembra, até porque nesse Inverno nevou em Paris, embora uns floquitos meio tímidos, e foi o Vitinha que lhe sugeriu a melhor maneira de fazer uma bola, ensinando-o a rapar a neve dos tejadilhos e capôs dos carros.
Quando acabou o curso, foi dar aulas de português para o CIDAC, do Luís Moita, onde cursavam estrangeiros que pretendiam ir trabalhar para países de expressão portuguesa, em África. Aí conheceu a Karen, uma certamente voluntariosa dinamarquesa por quem se apaixonou. Partiu, então, por esse mundo fora, seguindo o seu amor e a sua vocação de andarilho e cidadão do mundo. Primeiro, Moçambique, depois, Bolívia, adoptou duas crianças e acabou por nascer, 13 meses depois, uma filha natural.
Todos cinco viveram na Dinamarca e vivem agora no Chimoio, novamente em Moçambique.
Fui sabendo destas andanças do Vitinha através da minha irmã.
Há uns meses largos, apercebi-me de que existia um fulano, em Moçambique, que colocara o Entrelinhas Tortas entre os blogues dos seus amigos no seu próprio blogue. Distraída como sou, não reconheci o Vitinha que, entretanto, adoptou o apelido da sua mulher e perdeu a tez clara de antes, tanto quanto o cabelo ganhou as suas cãs. De perfil, não percebi que era ele.
Sei que esta história não tem grande interesse para as pessoas. Mas apeteceu-me contá-la. É que, entretanto, recuperámo-nos graças à blogosfera. E arriscaria mesmo dizer que estamos a reconhecer-nos, entre mails privados, que vamos trocando, e coisas que vamos apanhando nos blogs um do outro. E necessito agradecer-lhe e tornar-me cordão de uma ideia que me é grata e que jamais me passaria pela cabeça.
Linkem e perceberão de que falo. Sinto-me grata!

http://llindegaard.blogspot.com/2009/06/musica-negra-de-belo-marques.html

Entretanto, fiquem clientes. O Vitinha faz reflexões muito sérias sobre coisas muito divertidas, e muito divertidas sobre coisas muito sérias. Além disso, escreve com a erudição de um verdadeiro príncipe.

Deve ser bom viver no Chimoio e ouvir o tempo a crescer. Devagarinho.

sábado, 30 de maio de 2009

Modigliani



Há qualquer coisa em Modigliani.
Há qualquer coisa em Modigliani que me inquieta.
Há qualquer coisa em Modigliani que está muito para além de mim.
Deve ser isso.
É muito belo.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Eduardo

Vicent Van Gogh

Ele está completamente debruçado sobre si mesmo, a um palmo da mesa e à minha direita que é, simultaneamente, a cabeceira. Levanto-me sem pedir licença, enquanto lhe vou dizendo que tem de endireitar as costas, ao mesmo tempo que lhe ponho a mão esquerda no ombro e a direita nas costas, onde a sua cifose aumenta de cada vez que estou com ele. Insisto, carinhosamente, que tem de fazer um esforço para se endireitar. Ele está em silencio e talvez confuso. Quando adquire, apesar de tudo, a maior verticalidade que as suas vértebras permitem, dou-lhe um beijo na testa, e sento-me de novo. Pausadamente, explica-me a razão por que come tão dobrado. Rebusca uma justificação prosaica, como pedindo desculpa pelos seus modos à mesa. Digo-lhe que não me interessa esse aspecto e que, se essas suas razões lhe parecem essenciais, continue a comer desse modo, já que a minha observação tem a ver, não com boas maneiras, mas sim com uma outra coisa, bem mais importante. Volto a levantar-me e digo, em brincadeira, segurando-lhe no queixo, e depois no peito, e depois nas costas: “Queixo levantado, peito para fora, barriga para dentro!” e rio. Ele sorri, quase incapaz de me olhar nos olhos, entendendo.
Por alguns minutos rememoro-o em mim. O Eduardo da minha infância. Sempre calado e metido no quarto, a ler livros para mim estranhamente complexos. Salto um pouco no tempo e volto a revê-lo, naquele canto afectivo onde ele passou, verdadeiramente, a fazer parte da minha existência. Eu tinha 13, 14, 15 anos. Ele era um rapaz de vinte e tal, engenheiro químico, de curso feito com vintes a quase todas as cadeiras. Um génio diagnosticado. Silenciosa e timidamente, aparecia noites a fio em minha casa. Primeiro, pensei que se embeiçara pela minha irmã mais velha. Depois, percebi que me procurava. Era sempre e apenas eu quem estava em casa nessas noites dos últimos anos que antecederam o 25 de Abril. E ele voltava, noites a fio. E conversávamos. Talvez por eu ser miúda e saber ouvir, ele terá tido essa necessidade. Não sei. A mim sabia-me bem conversar com ele. Na verdade, ambos nos encontrávamos no mesmo estágio emocionalmente adolescente. Mas ele sabia mais. Ele sabia muito e, pacientemente, explicava-me e ajudava-me a evoluir nas minhas dúvidas metafísicas e muito difíceis de resolver. Entendíamo-nos num cosmos próprio.
Volto a saltar no tempo, e recordo uma noite, tinha o meu filho Pedro os seus dois ou três anos, em que ele chegou meio tímido à minha casa de mulher com 30 anos e me surpreendeu quando, entre uma ida e vinda da cozinha, onde aprontava o jantar, o vi estirado no chão a brincar com um carro que tinha um atrelado com um barco, para grande divertimento do meu filho. Foi a primeira vez que vi o Eduardo a brincar. Também nunca o tinha visto com uma criança. O mais incrível, o que mais me surpreendeu, foi aperceber-me o quão entretido estava. Depois, quando nos sentámos à mesa, ele dividiu-se entre conversar com o meu filho ou com os adultos presentes. Era o tempo do “Nuclear, não, obrigado”, e ele era uma sumidade na matéria. Essa era a sua Matéria. E com explicações simples afirmou a sua convicção de que essa era a energia mais limpa e eficaz. Ressalvou, contudo, o grande problema que com ela estava relacionado: os resíduos. E falou das soluções possíveis.
Largo as minha memórias ouvindo falar de religião ao fundo da mesa. A minha Tia, mãe do Eduardo, diz ser ateia, mas preferir os protestantes aos católicos, por serem menos hipócritas e, além do mais, ela própria sempre protestou muito. Sorriu e comento que para lá dos protestos, a verdade é que sou suspeita porque cresci com avós protestantes e dentro do seu culto, que sempre, na verdade, me pareceu mais sincero e simples, embora seja agnóstica, não ateia. À minha direita, novamente de olhos postos no prato e alquebrado, oiço-o dizer, sorrindo, que, precisamente, ele também se considera agnóstico. Sorriu-me e comento-lhe, a ele que, sei muito bem, apenas lê livros de física quântica, de ficção científica, sobre o cosmos e é habitado por seres para lá de nós: “pois! É tudo muito simples, cresceu, desenvolveu-se mas tudo partiu de um ponto, não é?”. Ele sorri e diz-me: “Estás a falar do big bang!”. Digo-lhe que, claro!, mas o que existe para lá do ponto? Responde-me que Nada. E o que nasce do Nada? “Do Nada não nasce nada!”. Pois é! Então, como surge um ponto do Nada? Ele sorri, abana a cabeça e ficamos assim.
Antes, à chegada, como sempre, havia um ponto. Às vezes, entre mim e ele geram-se nebulosas confusas, cheias de buracos negros e suas anti-matérias, nos momentos de maior confusão para ele. Mas raramente. Em geral, quando nos encontramos, o Universo prossegue, ainda, o seu caminho de expansão da matéria, em plena criação de novas constelações. Sei que, em grande parte, depende de mim. Por isso chego sempre prosaica, que é como as pessoas nunca lhe chegam e ele necessita cheguem. Digo-lhe: “Hum… Estás com a barba super feita…” e faço-lhe uma festa na sua barba super feita. Depois brinco com os cortes que as suas mãos trémulas sempre provocam, e adianto que é bom, porque assim continuamos a saber que o seu sangue é vermelho. Ele sorri timidamente e diz uma graça.
A verdade, aquela de que me apercebo e me dói, é que sei que esta minha juvenil forma de estar com ele, os meus carinhos físicos, o meu toque, até quando o obrigo a endireitar as costas, são essenciais. Só depois, quando venho embora, porque a verdade é essa, sou sempre eu que me vou embora, é que me dou conta. Ninguém lhe toca, ninguém lhe mexe, ninguém o afaga. Sem metáforas. Simplesmente toque em toda a sua simplicidade. Quando saí da mesa para lhe endireitar a coluna, para indirectamente lhe dizer que não se condene a um encolhimento que não tem de lhe pertencer, toquei-lhe, mexi-lhe, acarinhei-o. Toquei-o fisicamente!
E à despedida, o meu filho Francisco, que é muito físico nos seus afectos, abraça-o pelo pescoço. Deve ter-lhe sabido bem sentir a sinceridade do gesto. A mim, porque lhe dissera que talvez o achasse estranho mas tentasse compreender, o meu filho disse: “Ó mãe, não percebo porque me disseste que o teu primo podia parecer-me esquisito. Eu achei-o muito querido!”
Tenho de arranjar uma maneira de o Eduardo jogar xadrez com o meu filho. Estavam os dois desejosos por passarem à acção e ambos ficaram decepcionados por não o poderem fazer. O xadrez do Eduardo está no Telhal, por há tempos ter sugerido à minha tia que para lá o levasse, já que por lá passam os dias do Eduardo.
A jogar sozinho. Ele contra si mesmo. Uma espécie de Nada. Onde por vezes surge um ponto.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Aluada

Sou distraída. Distraio-me. E atraso-me.
Sempre os meus filhos, enquanto pequenos, acharam piada. Conforme foram crescendo, nem por isso.
Tem graça uma mãe distraída quando somos garotos. Quando crescemos, nem por isso.
Sou distraída. Tudo me distrai. Não deve ter grande graça para um filho, a páginas tantas. Mas antes das tantas até é divertido.
A questão principal é a de eu própria perceber se tem graça, para mim mesma, a minha distracção.
Tem! Gosto de ser distraída!
Sou distraída. Distraio-me com tudo. E isso é bom.
Acho eu, é claro.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Mario Benedetti

Rostro de vos

Tengo una soledad
tan concurrida
tan llena de nostalgias
Y de rostros de vos
de adioses hace tiempo
y besos bienvenidos
de primeras de cambio
y de último vagón

tengo una soledad
tan concurrida
que puedo organizarla
como una procesión
por colores
tamaños
y promesas
por época
por tacto
y por sabor

sin un temblor de más
me abrazo a tus ausencias
que asisten y me asisten
con mi rostro de vos

estoy lleno de sombras
de noches y deseos
de risas y de alguna
maldición

mis huéspedes concurren
concurren como sueños
con sus rencores nuevos
su falta de candor
yo les pongo una escoba
tras la puerta
porque quiero estar solo
con mi rostro de vos

pero el rostro de vos
mira a otra parte
con sus ojos de amor
que ya no aman

como víveres
que buscan a su hambre
miran y miran
y apagan mi jornada

las paredes se van
queda la noche
las nostalgias se van
no queda nada

ya mi rostro de vos
cierra los ojos

y es una soledad
tan desolada

Mario Benedetti, in Inventario


A notícia chegou-me pela manhã caída no meu mail. O meu amigo Tó Costa Santos enviou-ma via CNN, mesmo antes de eu ter iniciado a minha persistente ronda matinal pelos jornais do mundo. O Tó, como muitos amigos, sabe o quanto me esforcei, ao longo de décadas, por convencer diversas editoras a publicarem este escritor, que só muito recentemente a Cavalo de Ferro teve a louvável iniciativa de dar ao prelo com duas obras em português de Portugal. Nunca entendi a razão por que nenhuma se interessou antes.
Nunca entendi a razão.
Mario Benedetti é um dos mais sublimes escritores latino-americanos da actualidade e poucos portugueses terão tido a oportunidade de com ele conviver, mesmo em castelhano. Ou em montevideano, como ele gostava de definir a sua versão castelhana de escrever, para lá dos vos, tão próximos do nosso português, que os uruguaios usam, tal como múltiplos termos claramente assimilados pela proximidade com o Brasil.
Entristece-me profundamente a morte de Benedetti. Os mails que, em determinado momento, troquei com ele não me foram suficientes, nem conseguiram resolver o meu sentimento de injustiça relativamente à persistente falta de vontade em o publicar. Quando o contactei, graças à boa vontade da Embaixada do Uruguai, que prontamente lhe pediu autorização para me cederem os seus contactos, pretendi apenas transmitir-lhe o meu imenso desejo em o trazer para Portugal. Mas não só. Quis dizer-lhe o quanto os seus livros habitavam a minha leitura, o quanto o buscava nas prateleiras das livrarias madrilenas, o quanto amava a sua escrita, os seus poemas, as suas novelas, o seu humor, a sua visão literária e poética do mundo e das pessoas.
Apaixonei-me por ele há 30 anos, quando um amigo salvadorenho me emprestou Quien de Nosotros e depois Inventario. Um outro amigo, mexicano, decidiu enviarmos por correio em edições locais. Desde então, tornou-se uma obsessão. Tenho-o em edições colombianas, argentinas, mexicanas, espanholas… Mas tenho-o pouco.
Cresci a conviver com escritores, pintores, actores, artistas os mais variados. Conheci-lhes as obras e conheci-os pessoalmente. Quando cheguei à juventude, tornei-me uma compulsiva leitora de biografias daqueles que não conhecia. Interessava-me a vida deles por admirar as suas obras. Ainda hoje gosto de ler biografias. No entanto, a vontade de conhecer pessoalmente artistas esvaneceu-se. E apesar de ter tido, por imperativos profissionais, a obrigação de os conhecer, sempre preferi mantê-los longe da intimidade. Os deuses são para amar com uma aura, para amar pela obra de arte fabricada e não para entrar em pormenores. São mais belos na imaginação projectada pelas suas construções artísticas. Por isso, nunca corri para ir a uma das muitas sessões portuguesas do Paul Auster, ou do Tabucchi, meus escritores de paixão tão grande quanto Benedetti. Só a este último sempre desejei conhecer.
Há três anos, fui ao Chile, por ocasião da tomada de posse de Michel Bachelet. Benedetti, tal como Saramago, são profundamente amados e sempre convidados para estas ocasiões. Busquei na lista dos convidados o hotel onde Benedetti iria ficar, para tentar chegar até ele. Por razões de saúde, não foi. Os meus amigos chilenos encheram-me de livros retirados directamente das suas prateleiras. Livros lidos e relidos, amados e decorados, porque todos gostam de oferecer o que lhes vai nas prateleiras, mais do que ir apressadamente comprar para dar. É uma lógica muito diferente da nossa e que me pareceu especial. Regressei cheiinha de fabulosos Benedettis na minha bagagem.
Morreu ontem, com 88 anos. Não resistiu às saudades da sua Luz, companheira de toda a vida, cuja morte, no Verão europeu de 2007, o atirou para uma enorme depressão. Deixou quase 90 livros publicados e traduzidos em dezenas de idiomas, entre os quais o português, graças ao Brasil.
Ainda tenho muito para ler e por isso, para mim, ele não se irá embora já. Mas só lerei exactamente como ele escreveu. No seu castelhano cheio de montevideanismos.
E um dia irei a Montevideu, à procura da sua geografia urbana, da baía onde assistiu, na infância, à passagem do Graf Zeppelin e, mais tarde, ao afundamento do Graf Spee; ao parque Capurro e ao jardim Botânico; passear no Centro; e assistir a um jogo de futebol, no Estadio Centenario.

Celebrated Uruguayan writer Mario Benedetti dies
http://www.lanacion.cl/prontus_noticias_v2/site/artic/20090517/pags/20090517200021.html LEER LA NOTICIA COMPLETA
http://www.liberation.fr/culture/0101567915-mort-de-l-ecrivain-mario-benedetti

terça-feira, 12 de maio de 2009

Licungo


Lembro-me perfeitamente: o Chá Licungo tinha várias embalagens, que variavam de cor segundo o peso do pacote. O mais pequenino, que era mesmo muito minguado (não durava nem para um dia) tinha, creio, oito gramas, e possuía um celofane cor-de-rosa choque. A seguir vinha o de 50gr, cujo celofane era cor-de-laranja. Esse era o mais comum lá em casa. Depois, o amarelo, era de 100gr. Ainda havia um enorme, devia ser de mais gramas, claro, mas raramente os via, por isso não estou certa, mas creio ser vermelho. Além disso, existia uma promoção. Tinha a ver com a gramagem das embalagens vazias. Segundo os gramas, tinha-se direito a um determinado número de chávenas. Maior volume dava direito a um bule.
Era tudo amarelo e grosseiro. As chávenas de oferta Licungo eram “para bater” de tão grosseiras. Mas eu adorava quando a minha avó dizia, com uma molhada de embalagens vazias na mão, “vamos trocar os pacotes do Licungo”. Ia jurar que era no Largo da Estefânea. Mas talvez não fosse.
Fosse onde fosse, era muito divertido.
O Vitinha trouxe-me notícias dos campos originais do Licungo. Ao ler uma descrição pormenorizada, fui acompanhando, em imagens imaginárias. Fui vendo as folhas a entristecerem. Abandonadas.
Agora percebo melhor por que nunca mais encontrei Chá Licungo à venda. Agora sei que posso nunca mais recuperar o odor e o sabor do chá da minha infância.
Acontece.

domingo, 10 de maio de 2009

A chaleira

Catarina de Bragança



Fui educada por uma avó snob. Era viciada em chá Licungo, uma estirpe de chá moçambicano, bem preto e especial, de que ela, verdadeiramente, dependia. Era licungodependente. Não lhe oferecessem outro que era impensável. Tanto quanto dispensável será dizer que quando um tal de Tetley tee surgiu, com as suas saquetas subversivas e meio simplificantes no modo de se fazer chá, isso foi uma vergonhosa e verdadeira inconcebilidade para a minha avó. Chá era matéria folherífera. Havia que escaldar o bule, verter as folhas do Licungo, tapar, deixar abrir e, após alguns minutos (o cronómetro dependia da sua ansiedade) deitar a água a ferver e esperar que "as folhas abram". Jamais, mas jamais mesmo, se poderia beber chá aquecido. Fica mole!
Cresci a beber chá. Nunca bebi leite na infância. Nem gostava. Do que eu gostava era do chá, bem quente e amargo. Nunca lhe acrescentei açúcar, o que fazia as amigas da minha avó comentarem: "como bebe o chá sem açúcar? Para amarga, já basta a vida!", diziam-me. Eu ouvia isto e não entendia, porque adorava doces sob todas as formas - chocolate, ovos moles, chantilly-, mas o chá... a esse bebia-o simples, como ele me sabia, sem açúcar. Assim sempre o bebi e continuo a bebe-lo.

Adoro chá. Vivo com ele desde que me lembro de mim. Ao acordar, chá. A meio da tarde, chá. Depois do jantar, chá. Antes de ir dormir, chá. As minhas insónias começaram na infância. Penso que, em grande parte, as devo ao chá.

A minha avó era viciada em taína. Tremia, como qualquer toxicodependente quando em abstinência. Tremia mesmo! Quando nos visitava, a coisa mais importante -antes do almoço, após o almoço, a meio da tarde, ao fim da tarde, antes do jantar, durante o jantar, após o jantar, antes de partir- era oferecer-lhe chá. Chá a toda e qualquer hora. A minha avó movia-se a chá. Posso, por isso, e com propriedade, dizer que tenho mais chá que muita gente. Que bebo chá desde pequenina. É a verdade em toda a sua multifacetada realidade. É tão metafórico quanto saboroso. É a minha maneira de viver e observar a vida: através de uma chávena de chá.

Dizem-me, recorrentemente, que sou pretenciosa. Talvez por ter demasiado chá. Será? É que essa coisa de que se falava, e deixou de se referir (por que será?) sobre "beber chá desde pequenino" tem mesmo a sua razão de ser.

A minha avó tinha uma chaleira sempre ao lume. Punha-a cheia de água em lume brando, aguardando o seu momento. Quando o bule estava vazio, tudo decorria de modo eficaz e rápido: vertia uma água lavadeira para despejar as folhas anteriores, e logo de seguida deitava umas novinhas para dentro do bule, que tapava durante uns segundos de absoluta ansiedade, para logo verter a água a ferver sobre elas. Esperava que abrissem e imediatamente se servia. Porque a primeira chávena, ensinou-me, pertence à dona da casa, a quem convida, para que nela caiam as folhas flutuantes. Depois, que assentaram as demais, então servem-se as visitas.

O ritual do chá, na verdade, ensina o essencial. A boa educação reside nele. Não tem nada a ver com boas maneiras, que essas aprendem-se, com alguma facilidade, em adulto. Mas a boa educação, essa, reside no chá. Saber prepará-lo, amá-lo, servi-lo e bebe-lo. Não é para todos. Sempre aqueles que vão adquiririndo umas boas maneiras meio apressadas e vagamente endinheiradas, mas não sabem beber chá, se denunciam. Aqui... ali... Mais assim... ou mais assado. Ser bem educado é um universo que nada tem a ver com uma pretensão de. Ser bem educado é uma estrutura intrínseca e essencial no modo de estar perante si e o outro. Perante o mundo. É um modo de sentir, olhar, compreender, entender, respeitar. Ser bem educado é ser-se um sublime democrata.

Tenho uma chaleira permanente em cima do meu fogão. Tirei-lhe o apito! Era muito angustiante. Mas amo-a assim, cheia de um projecto de ebolição, linda e silenciosamente emitindo um vapor que denuncia o momento exacto, quando a olho, feliz, por apagar o lume e despejar a sua água pronta num bule esperançoso e já predestinado a me satisfazer com um dos muitos pretos chás prenhes de folhas prometedoras de uma beberragem de eleição. E se houver alguém mais, para lá de mim, aguardando, primeiro sirvo-me a mim, e depois, então, o mais venerando dos presentes. Porque assim se serve o chá.

Tenho uma chaleira em cima do fogão. Sempre. Disponível e educada, para aquecer as águas que podem destinar-se ao que eu muito bem entender. Mas é uma chaleira. Adoro-a. Tenho-a há vinte e nem sei quantos anos. É uma companheira. Tão gentil e polida, tão cheia de promessas, tão antiga, tão ancestral. Tão cúmplice.

A minha avó morreu a 19 de Abril de 1997. Tinha 94 anos e morreu porque decidiu morrer. Assim. Tal e qual. Snob e autoritária, também perante a sua própria vida. Acho que que não lhe apetecia beber mais chá.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Gazetas e bancos de jardim

Gazeta, o primeiro jornal publicado em Portugal
Dizia eu, a propósito da Mavilde, que as histórias faziam parte do jornalismo. Em 1989, trabalhava no Europeu, um diário que durou pouco e foi, lamentavelmente, pouco lido, apesar de ter uma redacção de fazer inveja. Eu era das primeiras a entrar e das últimas a sair. O Leite Pereira, actualmente director do Jornal de Notícias, era o meu chefe. Como me conhecia por já ter sido, anteriormente, meu chefe n'o ponto, decidiu por-me na secção de Sociedade, a fazer a página de Trabalho. Entretanto, eu fazia umas fugas à matéria laboral, em tempos extra, e ele alinhava. Achava-me piada, penso eu, porque eu dava conta de todos os recados e mais algum.
O Leite Pereira tinha a escola do Diário Popular, um vespertino que vivia muito de histórias. E tinha essa coisa lá dentro dele, além da loucura mais controlada que eu já conheci em alguém. Por isso, apesar de um pouco surpresa, não me admirei muito quando, a meio de uma manhã, me chamou e disse: "como tens a tua página semi-feita, vais com a Anabela Loureiro (a fotógrafa) dar uma volta e regressas à hora do almoço". Achei que ele, como estava sempre a correr comigo por eu trabalhar desde que a loja abria até que fechava, decidira mandar-me desanuviar. "Mas vou fazer o quê?". "Vais sair daqui e vais à procura de uma história. Volta daqui a duas horas e traz-me uma história". Enquanto ele se ria, eu abismava. Optei por rir e perguntar: "uma história? Mas onde?". "Não sei! É isso que vais descobrir!".
Arrumei as coisas e perguntei à Anabela, sempre ajoujada com aqueles sacos pesadíssimos das máquinas fotográficas: "Tens alguma ideia?". Ela disse-me que nem por sombras e descemos as escadas do jornal em direcção a um táxi. De repente, lembrei-me de uma notícia que vira, na véspera, no último jornal da RTP, sobre 35 pessoas, entre as quais quatro recém-nascidos, que tinham sido desalojadas, perto dos Anjos, e que estavam a viver na oficina de um vizinho. Mandei seguir. No percurso, saltou-me à vista um casal de sem-abrigo no Campo Santana.
Fizemos a nossa reportagem nos desalojados que, entretanto, estavam muito contentes e gratos a Cavaco Silva, que vira a notícia da RTP e já tinha providenciado realojamento àquelas pessoas. Estava a RTP, uma assistente social, etc. O circo mediático estava montado, mas havia outros pormenores que relatei e a Anabela bem ilustrou com as suas fotos. Não nos demos por satisfeitas. Voltámos ao Campo Santana e fomos entrevistar o casal sem abrigo. Já tinham feito tudo para ter uma casa. A RTP não estava lá e eles eram uma simples e ignorada história, muito comum naqueles tempos. Eram uma espécie de nómadas urbanos. Há quatro anos que dormiam ao relento, de jardim em jardim. O homem disse-me uma coisa muito sábia: "os bancos dão jeito, podemos dormir debaixo ou em cima deles!".
Chegámos com uma história com duas dentro. O Leite Pereira deu-nos uma página inteira.
Mas isto foi no tempo em que os jornalistas procuravam histórias. Por vezes, a mando de chefes de redacção.



Mavilde



Tive a sorte de iniciar-me no jornalismo no tempo em que uma boa história era uma boa história. O jornalismo valia por tudo. E uma boa história fazia parte desse tudo. A Mavilde é uma boa história. Daquelas que, não há muito tempo, encantariam qualquer chefe de redacção.
É verdade. Já não existem chefes de redacção. Há demasiado tempo. Por isso, já poucos se lembram dessa coisa das histórias simples. Daquelas das Palavras dos Outros, ou de seja que palavras. Já perdemos as palavras. Já perdemos praticamente tudo aquilo que valia realmente a pena. Já nos perdemos.
A Mavilde. Uma história que me fez sentido contar. Não publicada.


MAVILDE:

Do lado de cá da vida

No dia em que a brigada das campanhas de alfabetização promovidas pela Pró-UNEP (União Nacional dos Estudantes Portugueses) chegou ao lugar de Sanfins, no distrito de Braga, Mavilde teve um relampejo de esperança e acreditou que, por fim, a libertação estava a passar por ali.


“São vocês que vêm ensinar as pessoas a ler? É que eu quero, porque não sabia ver as horas e um dia pus um relógio à minha frente e não saí de lá sem saber ver as horas. Agora quero aprender a ler!”. Rosário Melo, uma jovem estudante que, à semelhança de muitos outros, integrou as campanhas de alfabetização durante as férias do Verão de 1974, jamais esquecerá a abordagem daquela mulher analfabeta do lugar de Sanfins, com quem almoça quase todos os anos, desde há dez, no dia 25 de Abril.
“Pus-me a pé a umas oito horas e diziam que em Lisboa tinha havido por lá uma revolução”, recorda Mavilde no seu modo particular de rememorar os tempos idos. Mas em lugar de Sanfins não se passou nada, como se essa tal revolução fosse mesmo apenas, e somente, uma coisa vivida na distante capital. Até ao mês de Agosto, quando verdadeiramente tudo mudou. “Vieram dizer-me que andava um grupo de estudantes de Lisboa que ia ensinar o que eram os partidos e a ler e a escrever. Perguntaram-me se eu queria e eu disse que sim. Passados uns dias, começaram a dizer: ‘não vamos que são comunistas, não vamos que são comunistas’ e deixaram de ir por causa disso. A mim não me interessava que fossem do que fossem. Deram-me a graça de Deus. Queriam que eu deixasse de ir porque tinham medo do que me pudesse acontecer. ‘Não vás, que dou-te uma rasa de grão’ (o equivalente a um alqueire, ou seja, cerca de 16 kg de milho). Tinham medo que eu corresse perigo, mas eu comia aquilo, e depois? Os ricos queriam era que a gente trabalhasse de graça”. Menos saber ajuda a controlar a insubordinação. Mas Mavilde nunca foi mulher de virar as costas à vida, e quando considerou que não continuaria a trabalhar a troco de uma côdea de pão que não chegava para encher, sequer, a boca de um dos filhos, quanto mais dos três, bateu o pé. Bem cara lhe saiu a atitude, que ver os filhos a passar fome é doloroso demais para qualquer mãe.
Ousem lá dizer a esta minhota que no tempo do Salazar é que era bom, que vão ver. Se há quem tenha esquecido a fome que se passava, Mavilde não é certamente uma delas. “Passei muita, muita, fome!” diz constantemente, como uma reafirmação de si mesma, um sublinhado da gratidão que sente por aquilo que possui hoje. Viveu uma fome tão constante e grande que, “quando passava o homem da sardinha a apitar a gaita, eu punha-me a cantar muito alto para os meus filhos não ouvirem e as vizinhas não perceberem que eu não tinha dinheiro para comprar. Passei muita fome”.
Em 1965, tinha então 31 anos, viu o marido partir “a monte” para França, com a ajuda de um passador a quem pagaram 14 “contos”. Desse montante, que ajudou a reunir, nunca recebeu o retorno. Durante quatro anos e quatro meses bem contados por Mavilde, nunca o homem lhe mandou um tostão, e notícias vazias do essencial só muito de quando em vez, umas cartas que pedia “ao povo amigo” lhe lessem. Com um filho de 22 meses e outro de 14, foi trabalhar para as terras “dos ricos” levando-os consigo sempre que possível. “Quando podia, metia ao bolso pãozinho e o que pudesse para dar aos filhos. Uma vizinha, que tinha um marido feiinho mas muito poupado, que também estava em França, ia-me ajudando e quando não podia, fazia a comida e chamava-me para ir lá comer com os meus filhos. O frio que a gente passava…A fome que a gente passava…”. Quando, em 1969, o marido voltou de férias para ver os filhos, instalou uma francesa, que entretanto por lá arranjara, em Aveiro, e a quem dizia ser viúvo. “Ela queria conhecer os filhos e ele dizia-lhe que viviam com uma madrinha”, mas a mentira tem perna curta e Mavilde apercebeu-se da marosca, embora ele fosse à aldeia e dormisse com ela. “Arranjou-me a filha e foi-se embora. Antes, ofereceu-me um fio de ouro, grosso, e comprou outro para a francesa, mas mais fininho”, relata entre gargalhadas, acrescentando que rapidamente o vendeu para comprar comida. Dele, continuou sem notícias.
Quando os jovens estudantes chegaram a Sanfins, os filhos de Mavilde eram os únicos a frequentar a escola do Ciclo Preparatório. Apesar de localizada a uma distância de cinco quilómetros e de haver, a meio do percurso, um cemitério que lhe causava arrepios, mal a luz do dia surgia, dizia para si mesma: “não tenho medo, não tenho medo” e corria para ir deixar os garotos na escola. Este gosto pela aprendizagem permitiu-lhe não dar importância ao que a vizinhança dizia acerca dos jovens estudantes. “Eles eram muito boas pessoas. Levavam frango e feijão-frade para nós comermos. A minha filha Isilda nunca tinha comido carne”. Rosário Melo recorda que depois de chegarem, concluíram ser melhor falar com o padre para os ajudar a realizarem uma sessão de esclarecimento. Ele acabou por concordar, organizando tudo, também graças à insistência de Mavilde nesse sentido. “Começámos com muita gente. Durante as aulas, oferecíamos chá e biscoitos. Penso que, apesar de tudo, se as coisas correram melhor connosco do que com outras brigadas isso teve a ver com o facto de, enquanto lá estivemos, irmos sempre à missa e nunca especificarmos quais os partidos com que simpatizávamos quando falávamos de política.” Pese embora a debandada originada pelas vozes que os apontavam como comunistas, alguns permaneceram e aprenderam a ler. Mavilde não passou a escrever com desenvoltura, mas consegue ler “quando a letra é de máquina, à mão é que nem sempre. Ainda hoje estive a ler a Bíblia”. “Ela era a única cujos filhos continuavam a estudar para lá da 4ª classe e, no entanto, era a que vivia pior na aldeia, por se recusar a trabalhar por apenas dez escudos”, diz Rosário.
Rumo à capital
Em Outubro de 1974, Mavilde ganhou asas. Um dos estudantes propôs-lhe que fosse para a Carvoeira, perto da Ericeira. “O menino Carlinhos, afilhado do Spínola, disse que eu viesse que me arranjava trabalho na terra e os meus filhos podiam ir para a escola. Mas quando vim para a casa do menino Zezinho, também apanhava dos restos para dar aos meus filhos. Acabaram por não me dar as terras para eu trabalhar e puseram-me a fazer limpezas sem me pagarem nada. Como protestava, começaram a dizer que me levavam de volta para a terra. Escrevi à directora da escola onde os meus filhos andavam, em Mafra, a explicar tudo. Ela deu-me logo dois ou três pacotes de leite e tratou de me arranjar casa cá, por 300 escudos”. Empregou-se num asilo, onde recebia 310 escudos. Nas folgas, “ia trabalhar noutras casas, ia para o matadouro, o meu Patrocínio (o filho do meio) ajudava e o povo também. Até que o comandante da GNR viu que eu era séria e trabalhava muito e quis ajudar-me. Eu era poupada. Na escola davam-me o almoço e eu lavava a loiça e trazia uns papo-secos. Deram-me um fogãozinho a petróleo, começou a espalhar-se que eu estava sozinha com as crianças e todos foram dando uma ajuda. Quando fui para o asilo não havia horários, lavava a roupa de cem velhotes, lavava a loiça, limpava o chão. ‘Dizei as coisas’, dizia eu às outras. Estive 15 anos no asilo, estive 15 anos no inferno, eram cabras…Não os velhinhos, coitadinhos, mas elas. Mas Deus deu-me mais sorte e aos meus filhos que aos filhos delas. Cabras! E à pior de todas, Deus já lhas fez pagar, que teve um acidente e partiu as pernas”. Para Mavilde as coisas são assim mesmo: Deus escreve direito por linhas tortas. Por isso, recompensou todo o seu penar. Colocou-lhe um homem endinheirado no destino. Meteu-se ao caminho, foi ter com o marido a França e disse-lhe: “Isto agora vai ser diferente. Se vens, vens; se não vens quero o divórcio”. Divorciou-se. “Casei-me novamente. Estive casada sete anos e há outros sete que sou viúva”. Quando o segundo marido morreu, a enteada, que nunca visitava o pai, apareceu a reclamar a herança. Mavilde tinha direito a três quartos dos bens, mas prescindiu dos terrenos por o marido sempre lhe ter dito que queria que ficassem para os netos. Apesar do respeito pela vontade do defunto, a enteada queria mais e ela ameaçou dar-lhe uma bofetada se não se calasse e “ela calou-se!”.
Vive bem. É rica. Os homens rondam-lhe a casa, mas ela não é tola. Fá-los penar. Conforme vão passando do lado de fora da sua casa térrea encrostada no quartel da GNR e que mantém pintadinha e confortável, vai comentando os passeantes. Tem um posto de vigia da sua janela. No telhado pôs pombas de porcelana e na fachada amarela andorinhas e um Santo Cristo de Ponta Delgada que descobriu numa loja de ferragens, porque “gosto muito de ter o que os outros não têm”. Às visitas senta-as em cadeiras, para preservar o sofá para os seus companheiros Boby, Ri e Andorinha, três rafeiros minorcas que ladram em uníssono e que ela reclama de seus “companheiros”. Os filhos estão bem. O António é polícia em Loures, “mas não anda na rua, está na esquadra a fazer escritório, está lá dentro a passar os papéis”. O Patrício é médico, “fez Farmácia e, ao fim de três anos, foi para médico. Passou-as…poupou muito e passou fome. Casou com uma madeirense, também médica” e só lamenta que se tenha divorciado de uma nora de quem até gostava, porque isso a afastou do neto e, “de avião ou de barco não vou, ninguém me lá vê”, embora já tenha deixado o filho levar um dos cães até à Madeira. A mais nova, Isilda, fruto da flausinante visita do primeiro marido, “estava a estudar à noite quando conheceu um rapaz que estava na tropa e foi amor à primeira vista. Disse-lhes: ‘se gostam um do outro, namorem lá, mas não façam asneiras’. Não fazem, não…Ela já levava um filho na barriga há três meses. Acabou por casar aos 18 anos, contra a vontade da sogra, que lhas fez passar muitas”. Vive em Santarém, é auxiliar numa escola e o marido largou a tropa para ir para a polícia, pertencendo às Brigadas de Trânsito.
No próximo dia 1 de Maio, Mavilde realizará o seu almoço anual, este ano adiado por uns dias, com a Senhora Rosária, a Senhora João (Jonita Ralha) e o Senhor João Médico (João Pereira de Almeida), os jovens estudantes que em 1974 lhe ensinaram as letras. Talvez os filhos apareçam. Todos três sabem que este é um almoço muito importante para a mãe, que diz com a persistente alegria que lhe dá força e saúde: “Estou muito contente com o 25 de Abril, mas também com eles (os “senhores”), porque se não fossem eles, a esta hora estava morta!”.


domingo, 26 de abril de 2009

25 de Abril


http://www.youtube.com/watch?v=ObL11AOeBhc&NR=1
Porque do outro lado do mundo chegou. Porque Amália o canta e porque vem do Chile.
Apeteceu-me este 25 de Abril. Assim!

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Livros

Gutenberg e a invenção da impressora

Não possuo a vontade de possuir livros. Para mim, os livros são entidades não possuíveis. Como deuses. O que importa não é a sua existência material, mas antes a sua posse imaterial. Quero com isto dizer que, mais do que possui-los, tê-los, diria, me interessa possuí-los dentro de mim. De que me serve uma imensa biblioteca de livros não compreendidos?
Não tenho, em relação aos livros, como em relação a tudo o resto, uma necessidade de posse. A mim o que me interessa é guardar o que dizem. Para mim, o essencial, é a escrita.
Os livros são objectos.
Observo prateleiras e prateleiras de livros. Não sei se foram lidos.
Gosto de ler livros. Peço-os emprestados. Leio-os e devolvo-os.
Não sou possessiva. Não quero só para mim o universo imenso que eles me fornecem.
Os livros são para partilhar.
Quando era jovem, conheci uma sábia senhora estrangeira, mais jovem, então, do que sou actualmente, mas com idade para ser minha mãe, que disse uma coisa muita importante e me fez perceber o valor de um livro. Não era portuguesa, claro, por isso conhecia a importância do desprendimento. Disse: "Os livros são coisas tão importantes que só devemos possuir um, ou dois - aquele que nos é essencial e aquele que estamos a ler. Todos os outros, de que gostamos e possuimos, devemos passar a outros, para que também eles os possam desfrutar".
Emprestei livros toda a minha vida. A maior parte deles não mos devolveram. Toda a minha vida pedi livros emprestados e sempre os devolvi. Respeito o sentimento de propriedade alheia.
Possuo apenas três livros que não empresto. São os meus objectos pessoais. Cronica de una muerte anunciada, do Gabriel Garcia Marquez, edição Casa de las Américas, com dedicatória para mim, com data anterior àquela em que lhe foi atribuído o Prémio Nobel da Literatura; As Mulheres do Meu País, em 1ª Edição, da Maria Lamas, pelo que penei para o possuir; e o Música Negra, do meu avô, Maestro Belo Marques, dedicado à minha Avó, Guiomar como eu, e que a minha Tia Maria fez questão de me oferecer recentemente. São livros-objectos de afecto. Só por isso.
Empresto livros com facilidade. Empresto, principalmente, aqueles de que mais gosto, a pessoas de quem gosto. Os livros são para se lerem e não, necessariamente, para se posssuirem.
Para que serve ter muitos livros que não se lêem? Por que razão alguém que ama ler insiste em possuir de modo tão egoista o seu ser amado?
Como diria Natália Correia, aos subalimentados da fome, a poesia é para comer!
E, contudo, gosto dos livros que tenho, da minha quase imaculada colecção Vampiro desde o nº1, das minhas múltiplas lombadas, do cheiro dos livros franceses (sabe-se lá por que tintas têm um cheiro tão especial), das dedicatórias, das descobertas antes do tempo de autores famosos, das minhas persistentes primeiras edições... daquela tão especial e pessoal dedicatória do Lindley Cintra...

sexta-feira, 13 de março de 2009

João Mesquita, ou a proporção divina

As coisas são como são. A vida é como é. E aquilo que a vida tem de mais certo é o seu próprio tempo de existência. Hoje, só hoje, não me apetece comentar aquilo que já li sobre o João Mesquita. Amanhã, ou depois de amanhã, ou qualquer dia, talvez. Mas não hoje.
Não vou nem sequer deter-me em mim para lamuriar, desaguar, lamentar a minha maior pobreza acrescentada pela morte do João. Não quero aproveitá-lo para falar de mim. Apetece-me simplesmente gritar que todos nascemos possíveis detentores de uma proporção divina, mas nem todos a detemos na alma. O João é, era, uma das mais sublimes proporções divinas que conheci na minha vida. Principalmente, ou essencialmente, porque a sua proporção residia em si mesmo. Dentro de si. Nada de físico ou material. Apenas um modo de entender a vida na sua proporção divina. Ou seja, na singeleza desaparente do que é justo. Tão simples e quase tão prosaico quanto isso. E tão raro, contudo.

sábado, 7 de março de 2009

Sabemos todos mais daquilo que não sabemos, do que daquilo que sabemos


Soubéssemos nós, conseguíssemos nós perceber e admitir aquilo que não sabemos, e estaríamos nós a perceber aquilo que sabemos. Fossemos nós capazes de admitir o desconhecido, a incógnita (ou X) e melhor e mais humildemente estaríamos nós em busca do que vale a pena. Andássemos nós mais preocupados com aquilo que vale a pena, e mais perto do Cosmos estaríamos. Sem procura de deuses ou outras justificações. Simplesmente conscientes da nossa pequena solidão. No entretanto.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Barack Obama


Grand Canyon

O Presidente norte-americano decidiu “apertar o cinto” a Washington. Numa das suas primeiras medidas enquanto chefe de Estado, Obama anunciou o congelamento dos salários de alguns membros seniores da Casa Branca e decidiu apertar as regras em relação ao trabalho de antigos “lobbyistas” que trabalham para o governo.
“Durante este período de emergência económica, as famílias estão a apertar os cintos e Washington devia fazer a mesma coisa”, disse Obama ao dar as boas-vindas aos seus colaboradores da Casa Branca, um dia depois de ter tomado posse.
“É por isso que vou decretar um congelamento dos salários aos meus colaboradores seniores da Casa Branca” que ganhem mais de 100 mil dólares, explicou.
"Deixem-me dizer isto da maneira mais clara que puder: a transparência e a força da lei serão as pedras basilares desta presidência", disse, declarando uma "nova era de abertura".
As novas ordens estabelecem "regras firmes para a minha Administração e para todos aqueles que a servem", acrescentou.
Obama esclareceu ainda que irá pôr em prática novas regras restritas aos antigos “lobbyistas” que trabalhem no governo. O Presidente explicou que irá proibir pessoas que trabalhem no sector privado como “lobbyistas” de trabalharem em matérias sobre as quais tinham anteriormente feito “lobby”.
Obama pôs ainda em marcha uma proibição aos presentes dados por “lobbyistas” (a membros do governo) e prometeu um maior acesso ao público a documentos governamentais sensíveis (envolvendo a segurança nacional e assuntos de privacidade).

(In Público.pt, Reuters)



Barack Obama





“Se alguém ainda duvida que a América é o lugar onde todos os sonhos são possíveis, se ainda questiona se os sonhos dos nossos fundadores ainda estão vivos, se ainda questiona o poder da nossa democracia, teve esta noite a resposta.
Foi a resposta dada pelas filas que se estendiam à volta das escolas, das igrejas em números que a nossa nação nunca viu antes, feitas de pessoas que esperaram três a quatro horas, muitas pela primeira vez nas suas vidas, porque acreditavam que desta vez tinha de ser diferente, que as suas vozes podiam fazer a diferença.
Foi a resposta dada por jovens e velhos, ricos e pobres, Democratas e Republicanos, negros, brancos, latinos, asiáticos, homossexuais, heterossexuais, deficientes, americanos que enviaram a mensagem ao mundo de que não somos somente um conjunto de indivíduos ou um conjunto de estados vermelhos ou azuis.
Nós somos, e sempre seremos, os Estados Unidos da América.
Foi a resposta que levou aqueles a quem foi dito durante tanto tempo para serem cínicos e receosos e duvidarem do que somos capazes de fazer e para colocar as mãos na arca da história e vergá-la mais uma vez em direcção à esperança num dia melhor.
Levou muto tempo, mas esta noite, por causa do que fizemos hoje nesta eleição e neste momento decisivo, a mudança chegou à América.
Há pouco tempo antes, no início da noite, recebi uma simpática chamada do senador McCain.
O senador McCain lutou muito durante esta campanha. E lutou ainda mais e durante mais tempo pelo país que ama. Ele fez sacrifícios pela América que a maior parte de nós não consegue sequer imaginar. Estamos bem pelo serviço que ele prestou, pela sua bravura e abnegação.
Dou-lhe os parabéns. Também dou os parabéns à Governadora Palin por tudo o que conquistou. E fico na expectativa de trabalhar com eles para renovar as promessas feitas a esta nação nos meses que se aproximam.
Quero agradecer ao meu companheiro nesta jornada, um homem que fez a campanha com todo o seu coração, e falou por homens e mulheres com quem cresceu nas ruas de Scranton e com quem partilhou o comboio de volta a casa no Delaware, o vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden.
E não estaria aqui esta noite sem o apoio incondicional da minha melhor amiga nos últimos 16 anos, o pilar da nossa família, o amor da minha vida, a próxima primeira dama dos Estados Unidos, Michelle Obama.
Sasha e Malia amo-vos mais do que podem imaginar. E conquistaram o cãozinho que vem connosco para a nova Casa Branca.
E, apesar de já não estar entre nós, sei que a minha avó nos está a ver, com o resto da família que fez de mim quem sou. Sinto a vossa falta. Sei que a minha dívida para com eles não é mensurável.
À minha irmã, Maya, à minha irmã Alma, a todos os meus irmãos e irmãs, obrigado por todo o apoio que me deram. Estou-vos muito grato.
E ao director da minha campanha, David Plouffe, o herói não celebrado desta campanha, que construiu, acho eu, a melhor campanha política na história dos Estados Unidos da América.
Ao meu responsável pela estratégia, David Axelrod, que tem sido meu companheiro ao longo de todo o caminho.
À melhor equipa de campanha alguma vez reunida na história política e que tornou tudo isto possível, estou eternamente grato pelo que sacrificaram para conseguir tudo isto.
Mas, acima de tudo, nunca esquecerei que esta vitória vos pertence, na verdade, a todos vós. É vossa.
Não era o candidato mais provável para este cargo. Não começamos com muito dinheiro ou patrocínios. A nossa campanha não foi planeada nos corredores de Washington. Começou em Des Moines, nas salas de Concord, nas varandas de Charleston. Foi crescendo com o trabalho de homens e mulheres que contribuíram com o que tinham e que recorreram ás suas poupanças para dar 5, 10 ou 20 dólares.
Ganhou força com os mais novos que rejeitaram o mito de geração apática, que deixaram as suas casa, famílias por empregos mal pagos e noites mal dormidas.
Ganhou força com a geração já não tão jovem que se aventurou no frio e no calor para bater a portas de estranhos e dos milhões de americanos que se voluntariaram e organizaram e provaram que passados mais de dois séculos um governo de pessoas, pelas pessoas e para as pessoas continua a existir na Terra.
Isto é vitória.
E sei que não fizeram isto somente para ganhar a eleição. E sei que não o fizeram por mim.
Fizeram-nos porque perceberam a enorme tarefa que nos espera. Porque apesar de celebrarmos esta noite, sabemos que os desafios que o dia de amanhã nos trás são os maiores da nossa vida – duas guerras, um planeta em perigo, a pior crise financeira num século.
Apesar de estarmos aqui esta noite, sabemos que existem americanos no deserto do Iraque, nas montanhas do Afeganistão que arriscam as suas vidas por nós.
Há mães e pais que não conseguem adormecer e que ficam a pensar como pagar as hipotecas ou as contas do médico ou se conseguem poupar o suficiente para a educação dos filhos.
Temos de rentabilizar a nossa energia, criar novos postos de trabalho, construir novas escolas e lidar com ameaças e reparar alianças.
O caminho que nos espera é longo. A nossa subida difícil. Podemos não chegar lá num ano, ou mesmo num mandato. Mas, América, nunca tive tanta esperança como a que tenho hoje de que chegaremos lá.
Prometo-vos, que como pessoas chegaremos lá.
Teremos contrariedades e falsas partidas. Haverá muitos que não irão concordar com cada decisão que tome como presidente. E sabemos que o governo não é capaz de resolver todos os problemas.
Mas serei sempre honesto convosco em relação aos desafios que enfrentamos. Vou ouvir-vos, em especial quando discordarmos. E, acima de tudo, vou pedir-vos para que se juntem a mim no trabalho de reconstrução desta nação, da única forma que sempre foi feito na América nos últimos 221 anos – bloco a bloco, mão calosa em mão calosa.
O que começou há 21 meses no inverno não pode terminar nesta noite de Outono.
Não é esta vitória a mudança que pretendemos. É a única forma de começarmos a mudança. E isso não pode acontecer se voltarmos a ser como éramos.
Não acontece sem vós, sem o novo espírito de serviço, o novo espírito de sacrifício.
Vamos unir-nos num novo espírito de patriotismo, de responsabilidade, em que cada um de nós resolve participar e trabalhar mas e olhar não só por nós mesmo mas também pelos outros.
Não nos esqueçamos que se a crise financeira nos ensinou alguma coisa foi de que não podemos ter uma Wall Street florescente enquanto que os outros sofrem.
Neste país, levantamo-nos e caímos como uma nação só, como um povo. Resistamos á tentação de voltar a cair no mesmo sectarismo, mesquinhez e imaturidade que envenenou a nossa política durante tanto tempo.
Relembremos que foi um homem deste Estado que pela primeira vez carregou a bandeira do Partido Republicanos até à Casa Branca, um partido que teve por base a autoconfiança, a liberdade individual e a unidade nacional.
Esses são os valores que todos partilhamos. E apesar do Partido Democrata ter conquistado uma grande vitória esta noite, fazemo-lo com a humildade e a determinação de sarar o que nos divide e que impediu o nosso progresso.
Como Lincoln disse a uma nação muito mais dividida do que a nossa, não somos inimigos, mas sim amigos. Apesar da paixão nos levar a exageros, não deve quebrar os nossos laços afectuosos.
E aqueles americanos cujo apoio ainda tenho de conquistar, posso não ter ganho o vosso voto esta noite, mas ouço a vossa voz. Preciso da vossa ajuda. E serei, também, o vosso presidente.
E para todos os que têm os olhos postos em nós esta noite, para além das nossas costas, dos parlamentos aos palácios, para aqueles que se juntaram à volta de rádios nos cantos mais esquecidos do mundo, as nossas histórias são diferentes mas o nosso destino é partilhado, e uma nova aurora se levanta na liderança americana.
Para aqueles que querem destruir o mundo: nós vamos destruir-vos. Para os que querem paz e segurança: nós apoiamos-vos. E para aqueles que se interrogam sobre se a luz de liderança da América continua viva: esta noite provamos, mais uma vez, que a força da nossa nação não vem do nosso poder militar ou da escala da nossa riqueza, mas do enorme poder dos nossos ideais: democracia, liberdade, oportunidade e esperança.
Essa é a verdadeira genialidade da América: a sua capacidade de mudança. A nossa união pode ser perfeita. O que conseguimos dá-nos ainda mais esperança em relação ao que podemos conseguir amanhã.
Esta eleição tinha muitas estreias e muitas histórias que serão contadas ao longo de gerações. Mas uma que está na nossa mente hoje é sobre uma mulher que votou em Atlanta. Ele assemelha-se a muitos milhões que estiveram na fila para fazer ouvir a sua voz nesta eleição por uma razão: Ann Nixon Cooper tem 106 anos.
Ela nasceu na geração da escravatura; num tempo em que não havia carros na estrada, aviões no céu; quando alguém como ela não podia votar por duas razões: porque era mulher e por causa da cor da sua ele.
E, esta noite, penso em tudo o que viu no centenário de vida na América – o desespero e a esperança; a luta e progresso; as vezes que nos disseram que não eram capazes e aqueles que mantiveram a sua capacidade de dizer: Sim, somos capazes.
E este ano, nesta eleição, ele tocou com o dedo no ecrã e fez o seu voto, porque depois de 106 anos na América, depois dos melhores tempos e dos mais obscuros, ela sabe que a América pode mudar.
Sim, somos capazes.
América, chegamos até aqui. Já vimos muito. Mas ainda há muito para fazer. Por isso, esta noite, perguntemos a nós mesmos: se as nossas crianças viverem para chegar ao próximo século; se as nossas filhas tiverem a sorte de viver tanto como Ann Nixon Cooper, que mudanças vão poder ver? Quer progressos teremos feito?
Esta é a nossa oportunidade de responder a essa questão. Este é o nosso momento.
Este é o nosso tempo, de voltar a dar trabalho à nossa gente, de abrir as portas da oportunidade aos nossos filhos; de restaurar a prosperidade e promover a paz; de reclamar o sonho americano e de reafirmas a verdade fundamental de que, no meio de muitos, somos um; que enquanto respiramos, mantemos a esperança. E aqui estamos nós, frente a frente com o cinismo e as dúvidas daqueles que nos dizem que não somos capazes, e a quem respondemos com o credo intemporal que representa o espírito de um povo: Sim, somos capazes.
Obrigado. Deus vos abençoe. E que Deus abençoe os Estados Unidos da América.”

Barack Obama