Quinta-feira, 30 de Abril de 2009

Gazetas e bancos de jardim

Gazeta, o primeiro jornal publicado em Portugal
Dizia eu, a propósito da Mavilde, que as histórias faziam parte do jornalismo. Em 1989, trabalhava no Europeu, um diário que durou pouco e foi, lamentavelmente, pouco lido, apesar de ter uma redacção de fazer inveja. Eu era das primeiras a entrar e das últimas a sair. O Leite Pereira, actualmente director do Jornal de Notícias, era o meu chefe. Como me conhecia por já ter sido, anteriormente, meu chefe n'o ponto, decidiu por-me na secção de Sociedade, a fazer a página de Trabalho. Entretanto, eu fazia umas fugas à matéria laboral, em tempos extra, e ele alinhava. Achava-me piada, penso eu, porque eu dava conta de todos os recados e mais algum.
O Leite Pereira tinha a escola do Diário Popular, um vespertino que vivia muito de histórias. E tinha essa coisa lá dentro dele, além da loucura mais controlada que eu já conheci em alguém. Por isso, apesar de um pouco surpresa, não me admirei muito quando, a meio de uma manhã, me chamou e disse: "como tens a tua página semi-feita, vais com a Anabela Loureiro (a fotógrafa) dar uma volta e regressas à hora do almoço". Achei que ele, como estava sempre a correr comigo por eu trabalhar desde que a loja abria até que fechava, decidira mandar-me desanuviar. "Mas vou fazer o quê?". "Vais sair daqui e vais à procura de uma história. Volta daqui a duas horas e traz-me uma história". Enquanto ele se ria, eu abismava. Optei por rir e perguntar: "uma história? Mas onde?". "Não sei! É isso que vais descobrir!".
Arrumei as coisas e perguntei à Anabela, sempre ajoujada com aqueles sacos pesadíssimos das máquinas fotográficas: "Tens alguma ideia?". Ela disse-me que nem por sombras e descemos as escadas do jornal em direcção a um táxi. De repente, lembrei-me de uma notícia que vira, na véspera, no último jornal da RTP, sobre 35 pessoas, entre as quais quatro recém-nascidos, que tinham sido desalojadas, perto dos Anjos, e que estavam a viver na oficina de um vizinho. Mandei seguir. No percurso, saltou-me à vista um casal de sem-abrigo no Campo Santana.
Fizemos a nossa reportagem nos desalojados que, entretanto, estavam muito contentes e gratos a Cavaco Silva, que vira a notícia da RTP e já tinha providenciado realojamento àquelas pessoas. Estava a RTP, uma assistente social, etc. O circo mediático estava montado, mas havia outros pormenores que relatei e a Anabela bem ilustrou com as suas fotos. Não nos demos por satisfeitas. Voltámos ao Campo Santana e fomos entrevistar o casal sem abrigo. Já tinham feito tudo para ter uma casa. A RTP não estava lá e eles eram uma simples e ignorada história, muito comum naqueles tempos. Eram uma espécie de nómadas urbanos. Há quatro anos que dormiam ao relento, de jardim em jardim. O homem disse-me uma coisa muito sábia: "os bancos dão jeito, podemos dormir debaixo ou em cima deles!".
Chegámos com uma história com duas dentro. O Leite Pereira deu-nos uma página inteira.
Mas isto foi no tempo em que os jornalistas procuravam histórias. Por vezes, a mando de chefes de redacção.



2 comentários:

comboio turbulento disse...

vim cá cair através da inutilidade das palavras(veja-se a contradição). Se me deixarem vou cá ficar e voltar com assiduidade. O texto da Mavilde enterneceu-me. Parabéns

GBM disse...

Volta sempre, Comboio Turbulento! E obrigada pelo teu pouca-terra.