Gutenberg e a invenção da impressoraNão possuo a vontade de possuir livros. Para mim, os livros são entidades não possuíveis. Como deuses. O que importa não é a sua existência material, mas antes a sua posse imaterial. Quero com isto dizer que, mais do que possui-los, tê-los, diria, me interessa possuí-los dentro de mim. De que me serve uma imensa biblioteca de livros não compreendidos?
Não tenho, em relação aos livros, como em relação a tudo o resto, uma necessidade de posse. A mim o que me interessa é guardar o que dizem. Para mim, o essencial, é a escrita.
Os livros são objectos.
Observo prateleiras e prateleiras de livros. Não sei se foram lidos.
Gosto de ler livros. Peço-os emprestados. Leio-os e devolvo-os.
Não sou possessiva. Não quero só para mim o universo imenso que eles me fornecem.
Os livros são para partilhar.
Quando era jovem, conheci uma sábia senhora estrangeira, mais jovem, então, do que sou actualmente, mas com idade para ser minha mãe, que disse uma coisa muita importante e me fez perceber o valor de um livro. Não era portuguesa, claro, por isso conhecia a importância do desprendimento. Disse: "Os livros são coisas tão importantes que só devemos possuir um, ou dois - aquele que nos é essencial e aquele que estamos a ler. Todos os outros, de que gostamos e possuimos, devemos passar a outros, para que também eles os possam desfrutar".
Emprestei livros toda a minha vida. A maior parte deles não mos devolveram. Toda a minha vida pedi livros emprestados e sempre os devolvi. Respeito o sentimento de propriedade alheia.
Possuo apenas três livros que não empresto. São os meus objectos pessoais. Cronica de una muerte anunciada, do Gabriel Garcia Marquez, edição Casa de las Américas, com dedicatória para mim, com data anterior àquela em que lhe foi atribuído o Prémio Nobel da Literatura; As Mulheres do Meu País, em 1ª Edição, da Maria Lamas, pelo que penei para o possuir; e o Música Negra, do meu avô, Maestro Belo Marques, dedicado à minha Avó, Guiomar como eu, e que a minha Tia Maria fez questão de me oferecer recentemente. São livros-objectos de afecto. Só por isso.
Empresto livros com facilidade. Empresto, principalmente, aqueles de que mais gosto, a pessoas de quem gosto. Os livros são para se lerem e não, necessariamente, para se posssuirem.
Para que serve ter muitos livros que não se lêem? Por que razão alguém que ama ler insiste em possuir de modo tão egoista o seu ser amado?
Como diria Natália Correia, aos subalimentados da fome, a poesia é para comer!E, contudo, gosto dos livros que tenho, da minha quase imaculada colecção Vampiro desde o nº1, das minhas múltiplas lombadas, do cheiro dos livros franceses (sabe-se lá por que tintas têm um cheiro tão especial), das dedicatórias, das descobertas antes do tempo de autores famosos, das minhas persistentes primeiras edições... daquela tão especial e pessoal dedicatória do Lindley Cintra...
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