Catarina de BragançaFui educada por uma avó snob. Era viciada em chá Licungo, uma estirpe de chá moçambicano, bem preto e especial, de que ela, verdadeiramente, dependia. Era licungodependente. Não lhe oferecessem outro que era impensável. Tanto quanto dispensável será dizer que quando um tal de Tetley tee surgiu, com as suas saquetas subversivas e meio simplificantes no modo de se fazer chá, isso foi uma vergonhosa e verdadeira inconcebilidade para a minha avó. Chá era matéria folherífera. Havia que escaldar o bule, verter as folhas do Licungo, tapar, deixar abrir e, após alguns minutos (o cronómetro dependia da sua ansiedade) deitar a água a ferver e esperar que "as folhas abram". Jamais, mas jamais mesmo, se poderia beber chá aquecido. Fica mole!
Cresci a beber chá. Nunca bebi leite na infância. Nem gostava. Do que eu gostava era do chá, bem quente e amargo. Nunca lhe acrescentei açúcar, o que fazia as amigas da minha avó comentarem: "como bebe o chá sem açúcar? Para amarga, já basta a vida!", diziam-me. Eu ouvia isto e não entendia, porque adorava doces sob todas as formas - chocolate, ovos moles, chantilly-, mas o chá... a esse bebia-o simples, como ele me sabia, sem açúcar. Assim sempre o bebi e continuo a bebe-lo.
Adoro chá. Vivo com ele desde que me lembro de mim. Ao acordar, chá. A meio da tarde, chá. Depois do jantar, chá. Antes de ir dormir, chá. As minhas insónias começaram na infância. Penso que, em grande parte, as devo ao chá.
A minha avó era viciada em taína. Tremia, como qualquer toxicodependente quando em abstinência. Tremia mesmo! Quando nos visitava, a coisa mais importante -antes do almoço, após o almoço, a meio da tarde, ao fim da tarde, antes do jantar, durante o jantar, após o jantar, antes de partir- era oferecer-lhe chá. Chá a toda e qualquer hora. A minha avó movia-se a chá. Posso, por isso, e com propriedade, dizer que tenho mais chá que muita gente. Que bebo chá desde pequenina. É a verdade em toda a sua multifacetada realidade. É tão metafórico quanto saboroso. É a minha maneira de viver e observar a vida: através de uma chávena de chá.
Dizem-me, recorrentemente, que sou pretenciosa. Talvez por ter demasiado chá. Será? É que essa coisa de que se falava, e deixou de se referir (por que será?) sobre "beber chá desde pequenino" tem mesmo a sua razão de ser.
A minha avó tinha uma chaleira sempre ao lume. Punha-a cheia de água em lume brando, aguardando o seu momento. Quando o bule estava vazio, tudo decorria de modo eficaz e rápido: vertia uma água lavadeira para despejar as folhas anteriores, e logo de seguida deitava umas novinhas para dentro do bule, que tapava durante uns segundos de absoluta ansiedade, para logo verter a água a ferver sobre elas. Esperava que abrissem e imediatamente se servia. Porque a primeira chávena, ensinou-me, pertence à dona da casa, a quem convida, para que nela caiam as folhas flutuantes. Depois, que assentaram as demais, então servem-se as visitas.
O ritual do chá, na verdade, ensina o essencial. A boa educação reside nele. Não tem nada a ver com boas maneiras, que essas aprendem-se, com alguma facilidade, em adulto. Mas a boa educação, essa, reside no chá. Saber prepará-lo, amá-lo, servi-lo e bebe-lo. Não é para todos. Sempre aqueles que vão adquiririndo umas boas maneiras meio apressadas e vagamente endinheiradas, mas não sabem beber chá, se denunciam. Aqui... ali... Mais assim... ou mais assado. Ser bem educado é um universo que nada tem a ver com uma pretensão de. Ser bem educado é uma estrutura intrínseca e essencial no modo de estar perante si e o outro. Perante o mundo. É um modo de sentir, olhar, compreender, entender, respeitar. Ser bem educado é ser-se um sublime democrata.
Tenho uma chaleira permanente em cima do meu fogão. Tirei-lhe o apito! Era muito angustiante. Mas amo-a assim, cheia de um projecto de ebolição, linda e silenciosamente emitindo um vapor que denuncia o momento exacto, quando a olho, feliz, por apagar o lume e despejar a sua água pronta num bule esperançoso e já predestinado a me satisfazer com um dos muitos pretos chás prenhes de folhas prometedoras de uma beberragem de eleição. E se houver alguém mais, para lá de mim, aguardando, primeiro sirvo-me a mim, e depois, então, o mais venerando dos presentes. Porque assim se serve o chá.
Tenho uma chaleira em cima do fogão. Sempre. Disponível e educada, para aquecer as águas que podem destinar-se ao que eu muito bem entender. Mas é uma chaleira. Adoro-a. Tenho-a há vinte e nem sei quantos anos. É uma companheira. Tão gentil e polida, tão cheia de promessas, tão antiga, tão ancestral. Tão cúmplice.
A minha avó morreu a 19 de Abril de 1997. Tinha 94 anos e morreu porque decidiu morrer. Assim. Tal e qual. Snob e autoritária, também perante a sua própria vida. Acho que que não lhe apetecia beber mais chá.
4 comentários:
Olá Guiomar,
Isto não é exactamente um comentário, de maneira que escusas de o publicar. É só para te mandar um beijinho de Chimoio. Estás boa? E aproveito, já agora, para te dizer que o Professor Alcino Magalhães Saraiva ressuscitou dos mortos e que o velho Momento de poesia do Despertar dos Alpinistas existe agora em blog: http://coisasseada.blogspot.com/ . Um disparate pegado, claro está. Uma curiosidade: entre 1997 e 1999 vivi na Alta Zambézia, perto de Guruè, onde se produzia o Chá Licungo e ia lá de vez em quando. Beijinhos. Vitinha
Estou há unstempos para escrever um post sobre a minha avó que também tomava religiosamente chá e fazia a melhor cevada que uma criança como eu podia beber. Ganhei força para o escrever um dia destes. Este post tem a ternura que eu sintia pela minha avó.
Fico à espera de conhecer a tua avó, Comboio. E também já sei que és um pouca-terra movido a chá. Ah, les beaux esprits...
Agora tu, Vitinha!!!
Que bela surpresa essa de me entrares assim pelas minhas Entrelinhas. Já espreitei o Professor Alcino... e rememorei os tempos dos Alpinistas... Já está nos blogs que me fazem sentido. Nunca vens até à parvónia lisboeta? Tenho saudades das tuas reprimendas linguísticas:)
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