Segunda-feira, 18 de Maio de 2009

Mario Benedetti

Rostro de vos

Tengo una soledad
tan concurrida
tan llena de nostalgias
Y de rostros de vos
de adioses hace tiempo
y besos bienvenidos
de primeras de cambio
y de último vagón

tengo una soledad
tan concurrida
que puedo organizarla
como una procesión
por colores
tamaños
y promesas
por época
por tacto
y por sabor

sin un temblor de más
me abrazo a tus ausencias
que asisten y me asisten
con mi rostro de vos

estoy lleno de sombras
de noches y deseos
de risas y de alguna
maldición

mis huéspedes concurren
concurren como sueños
con sus rencores nuevos
su falta de candor
yo les pongo una escoba
tras la puerta
porque quiero estar solo
con mi rostro de vos

pero el rostro de vos
mira a otra parte
con sus ojos de amor
que ya no aman

como víveres
que buscan a su hambre
miran y miran
y apagan mi jornada

las paredes se van
queda la noche
las nostalgias se van
no queda nada

ya mi rostro de vos
cierra los ojos

y es una soledad
tan desolada

Mario Benedetti, in Inventario


A notícia chegou-me pela manhã caída no meu mail. O meu amigo Tó Costa Santos enviou-ma via CNN, mesmo antes de eu ter iniciado a minha persistente ronda matinal pelos jornais do mundo. O Tó, como muitos amigos, sabe o quanto me esforcei, ao longo de décadas, por convencer diversas editoras a publicarem este escritor, que só muito recentemente a Cavalo de Ferro teve a louvável iniciativa de dar ao prelo com duas obras em português de Portugal. Nunca entendi a razão por que nenhuma se interessou antes.
Nunca entendi a razão.
Mario Benedetti é um dos mais sublimes escritores latino-americanos da actualidade e poucos portugueses terão tido a oportunidade de com ele conviver, mesmo em castelhano. Ou em montevideano, como ele gostava de definir a sua versão castelhana de escrever, para lá dos vos, tão próximos do nosso português, que os uruguaios usam, tal como múltiplos termos claramente assimilados pela proximidade com o Brasil.
Entristece-me profundamente a morte de Benedetti. Os mails que, em determinado momento, troquei com ele não me foram suficientes, nem conseguiram resolver o meu sentimento de injustiça relativamente à persistente falta de vontade em o publicar. Quando o contactei, graças à boa vontade da Embaixada do Uruguai, que prontamente lhe pediu autorização para me cederem os seus contactos, pretendi apenas transmitir-lhe o meu imenso desejo em o trazer para Portugal. Mas não só. Quis dizer-lhe o quanto os seus livros habitavam a minha leitura, o quanto o buscava nas prateleiras das livrarias madrilenas, o quanto amava a sua escrita, os seus poemas, as suas novelas, o seu humor, a sua visão literária e poética do mundo e das pessoas.
Apaixonei-me por ele há 30 anos, quando um amigo salvadorenho me emprestou Quien de Nosotros e depois Inventario. Um outro amigo, mexicano, decidiu enviarmos por correio em edições locais. Desde então, tornou-se uma obsessão. Tenho-o em edições colombianas, argentinas, mexicanas, espanholas… Mas tenho-o pouco.
Cresci a conviver com escritores, pintores, actores, artistas os mais variados. Conheci-lhes as obras e conheci-os pessoalmente. Quando cheguei à juventude, tornei-me uma compulsiva leitora de biografias daqueles que não conhecia. Interessava-me a vida deles por admirar as suas obras. Ainda hoje gosto de ler biografias. No entanto, a vontade de conhecer pessoalmente artistas esvaneceu-se. E apesar de ter tido, por imperativos profissionais, a obrigação de os conhecer, sempre preferi mantê-los longe da intimidade. Os deuses são para amar com uma aura, para amar pela obra de arte fabricada e não para entrar em pormenores. São mais belos na imaginação projectada pelas suas construções artísticas. Por isso, nunca corri para ir a uma das muitas sessões portuguesas do Paul Auster, ou do Tabucchi, meus escritores de paixão tão grande quanto Benedetti. Só a este último sempre desejei conhecer.
Há três anos, fui ao Chile, por ocasião da tomada de posse de Michel Bachelet. Benedetti, tal como Saramago, são profundamente amados e sempre convidados para estas ocasiões. Busquei na lista dos convidados o hotel onde Benedetti iria ficar, para tentar chegar até ele. Por razões de saúde, não foi. Os meus amigos chilenos encheram-me de livros retirados directamente das suas prateleiras. Livros lidos e relidos, amados e decorados, porque todos gostam de oferecer o que lhes vai nas prateleiras, mais do que ir apressadamente comprar para dar. É uma lógica muito diferente da nossa e que me pareceu especial. Regressei cheiinha de fabulosos Benedettis na minha bagagem.
Morreu ontem, com 88 anos. Não resistiu às saudades da sua Luz, companheira de toda a vida, cuja morte, no Verão europeu de 2007, o atirou para uma enorme depressão. Deixou quase 90 livros publicados e traduzidos em dezenas de idiomas, entre os quais o português, graças ao Brasil.
Ainda tenho muito para ler e por isso, para mim, ele não se irá embora já. Mas só lerei exactamente como ele escreveu. No seu castelhano cheio de montevideanismos.
E um dia irei a Montevideu, à procura da sua geografia urbana, da baía onde assistiu, na infância, à passagem do Graf Zeppelin e, mais tarde, ao afundamento do Graf Spee; ao parque Capurro e ao jardim Botânico; passear no Centro; e assistir a um jogo de futebol, no Estadio Centenario.

Celebrated Uruguayan writer Mario Benedetti dies
http://www.lanacion.cl/prontus_noticias_v2/site/artic/20090517/pags/20090517200021.html LEER LA NOTICIA COMPLETA
http://www.liberation.fr/culture/0101567915-mort-de-l-ecrivain-mario-benedetti

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