
Não gosto, entre outros, de um traço de personalidade nacional: a hipocrisia. Como uma herança meio bafienta e salazarenta, a hipocrisia enerva-me. Associo-a ao enganador, àquele que se se supõe mais espertalhaço do que o outro, supondo enganá-lo com habilidade. Com aquela falsidade tão fácil num país para o qual a memória é algo que se prefere não ter. Dói menos, assim.
E o pior não é, apenas, esta colectiva maneira de se aceitar o simulacro, mas o quanto se entranha e assim se entende, um pouco aqui, um pouco ali, ser esta uma excelente solução para se seguir vivendo.
Finge-se não perceber, finge-se não ver, finge-se o esquecimento. Como um estúpido modo de se dissimular a dor. E os hipócritas prosseguem o seu fito.
Não gosto de hipocrisia.
Não gosto de fingimentos dissimulados, da espertalhice canalha, da porcalhice.
Vem isto a propósito de qualquer coisa, é claro!
Uma notícia saída em vários sítios. Reproduzo aqui aquela cuja escrita, o modo de contar, mais me tocou.
Cavaco homenageia o homem a quem há 20 anos recusou pensão
Quando, esta manhã, Natércia Maia olhar nos olhos do Presidente da República, há-de lembrar-se do primeiro-ministro que, há 20 anos, recusou conceder a Salgueiro Maia uma pensão por "serviços excepcionais ou relevantes prestados ao país". Cavaco Silva que hoje, às dez da manhã, vai depositar uma coroa de flores junto à estátua do capitão de Abril, há-de lembrar-se da polémica provocada por ter concedido a dois inspectores da PIDE, António Bernardo e Óscar Cardoso, a pensão que negou a Salgueiro Maia.
Em 1988, o militar solicitou ao governo uma pensão "por serviços excepcionais prestados ao país". O pedido recebeu apreciação positiva - e até obrigatória - do conselho consultivo da PGR que, em Junho de 1989, por unanimidade, declarou que "muito do êxito da revolução se ficou a dever ao comportamento valoroso daquele que foi apodado de Grande Operacional do 25 de Abril".
O parecer enviado a Cavaco Silva e Miguel Cadilhe, então primeiro-ministro e ministro das Finanças, respectivamente, ficou amarrado a um silêncio que durou três anos. Em 1992, a recusa é revelada porque se fica a saber que Cavaco Silva "tinha concedido pensões por serviços relevantes prestados ao país" a dois inspectores da PIDE. Um deles estava entre os que fizeram fogo sobre a multidão que estava na rua António Maria Cardoso - causando os únicos mortos da revolução.
A revelação provocou uma onda de indignação no país: Francisco Sousa Tavares escreve, no "Público", críticas violentas que acabam em tribunal - as palavras do escritor irritaram os juízes do Supremo Tribunal Militar - e dois meses mais tarde surge a mão de Mário Soares.
O Presidente escolhe então o dia das Forças Armadas para condecorar Salgueiro Maia com a Ordem Militar de Torre e Espada. A honra concedida a título póstumo - Salgueiro Maia morreu a 4 de Junho de 1992 - era a única condecoração que podia dar direito a uma pensão.
Cavaco Silva vai estar hoje frente-a-frente com o passado, perante um militar que juntou quatro presidentes da República no dia do funeral.
Artur Cassiano, in “i”
1 comentários:
na mouche minha cara, na mouche.
subscrevo
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