Terça-feira, 9 de Junho de 2009

Vitinha

Malangatana

Conheci o Vitinha em 1984, quando me serviu um caldo-verde fumegante num bar da Madragoa, onde se ouvia jazz e que permanecia aberto até de manhã. Deviam ser umas quatro e muito da manhã, e eu fazia horas, com aquele que viria a ser pai do meu filho Pedro, o Mário, e uma amiga com quem dividia a primeira casa que aluguei, no Cacém. O Vitinha tinha andado por terras de França e dividia, com o Pedro Malaquias, a autoria das letras dos Rádio Macau. Para sobreviver, trabalhava naquele bar de onde, tanto quanto me lembro, se despediu quando a patroa lhe exigiu que servisse caldos-verde menos quentes e isso o indignou. Como ele vivia em Rio de Mouro, fomos juntos no primeiro comboio. Animado com a conversa, principalmente com a minha amiga, apeou-se no Cacém e tomámos um pequeno-almoço de croissants acafezados numa pastelaria perto da estação. Ficámos conhecidos!
Como ele era específico, lembro-me de, quando em Dezembro nos convidou para o seu aniversário, lhe termos levado um presente demoradamente escolhido por mim e pela Cristina: uma série de sinais de trânsito, daqueles com que as crianças brincam, que pretendiam ajudá-lo a encontrar um caminho. Não explicámos como deveria orientá-los. Muitos anos depois, na Tertúlia, no Bairro Alto, confessou-me que fizera todas as combinações possíveis sem que alguma vez entendesse o percurso que estivera nas nossas intenções. A verdade é que nem nós o tivéramos absolutamente claro.
As nossas vidas foram andando e tanto ele quanto eu regressámos à nossa Lisboa, do elevador da Glória. Íamo-nos encontrando.
Trabalhámos na mesma rádio local, onde ele tinha, a meias com o Malaquias, um programa delirante chamado Despertar dos Alpinistas, e eu um relativamente enfadonho sobre Lisboa.
O Vitinha decidiu regressar aos estudos e foi para a que fora a minha Faculdade (ainda o era um pedacinho, por ter umas velhas cadeiras penduradas) fazer Literaturas. Já bem mais crescido do que os seus colegas, tornou-se dirigente da Associação de Estudantes e fez parte do movimento “Não pagamos!”. As propinas, claro!
Íamo-nos vendo e ele acabou por se tornar amigo da minha irmã Olga, que vivia em Paris. Razão pela qual acabámos por passar um Natal juntos, em casa dela. O Natal mais divertido de que o meu filho Pedro se lembra, até porque nesse Inverno nevou em Paris, embora uns floquitos meio tímidos, e foi o Vitinha que lhe sugeriu a melhor maneira de fazer uma bola, ensinando-o a rapar a neve dos tejadilhos e capôs dos carros.
Quando acabou o curso, foi dar aulas de português para o CIDAC, do Luís Moita, onde cursavam estrangeiros que pretendiam ir trabalhar para países de expressão portuguesa, em África. Aí conheceu a Karen, uma certamente voluntariosa dinamarquesa por quem se apaixonou. Partiu, então, por esse mundo fora, seguindo o seu amor e a sua vocação de andarilho e cidadão do mundo. Primeiro, Moçambique, depois, Bolívia, adoptou duas crianças e acabou por nascer, 13 meses depois, uma filha natural.
Todos cinco viveram na Dinamarca e vivem agora no Chimoio, novamente em Moçambique.
Fui sabendo destas andanças do Vitinha através da minha irmã.
Há uns meses largos, apercebi-me de que existia um fulano, em Moçambique, que colocara o Entrelinhas Tortas entre os blogues dos seus amigos no seu próprio blogue. Distraída como sou, não reconheci o Vitinha que, entretanto, adoptou o apelido da sua mulher e perdeu a tez clara de antes, tanto quanto o cabelo ganhou as suas cãs. De perfil, não percebi que era ele.
Sei que esta história não tem grande interesse para as pessoas. Mas apeteceu-me contá-la. É que, entretanto, recuperámo-nos graças à blogosfera. E arriscaria mesmo dizer que estamos a reconhecer-nos, entre mails privados, que vamos trocando, e coisas que vamos apanhando nos blogs um do outro. E necessito agradecer-lhe e tornar-me cordão de uma ideia que me é grata e que jamais me passaria pela cabeça.
Linkem e perceberão de que falo. Sinto-me grata!

http://llindegaard.blogspot.com/2009/06/musica-negra-de-belo-marques.html

Entretanto, fiquem clientes. O Vitinha faz reflexões muito sérias sobre coisas muito divertidas, e muito divertidas sobre coisas muito sérias. Além disso, escreve com a erudição de um verdadeiro príncipe.

Deve ser bom viver no Chimoio e ouvir o tempo a crescer. Devagarinho.

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